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DO QUASE À NÃO IDENTIDADE

 

Sofia Porto Bauchwitz*

 

         A ciência não consegue dar conta das respostas que pedimos e as imagens que se criam não sempre conseguem se manter na dinâmica de eficácia e rentabilidade que o sistema pede delas. A história da Ciência está repleta de imagens mirabolantes que pouco ou nada tem a ver com a verdade que os avanços tecnológicos têm demonstrado. O que, por exemplo, sabemos da vida privada das baleias? O que podemos realmente ver com os nossos olhos sempre dependentes da técnica, da máquina fotográfica, de uma lente? Que imagens criamos para representar o conhecimento? Quão incompletas ou mentirosas são elas?

         Ao escolher falar dos quases que chegam à superfície (restos orgânicos e minerais, uma cauda, bolhas de ar), estou falando de uma tipo de resistência política de qualidade poética e feminista, pós-humana. Uma política das baleias, talvez. E então passam a me interessar outras perguntas: Como dormem as baleias? Transam as baleias e as lulas gigantes? Que trocas e diálogos acontecem no escuro? Com o quê sonha o plâncton? Imaginar e pensar respostas, mesmo que fragmentárias e fugazes, para aquilo que não conseguimos (como método, como ciência, como conceito) responder é uma maneira de insistir na nossa própria capacidade de habitar e modificar as dinâmicas deste mundo.

         Quando Baudelaire elogia o transitório e o fugidio pressupõe neles certo acesso à autenticidade. Essa crença nasce com o profundus, que em latim significava falta de medida, a desmoderação. O fundo como espaço sem limites, um abismo que não conseguimos alcançar. Ao pensar no olho da baleia que conseguimos enxergar (e é simplesmente impossível ver os dois ao mesmo tempo), vou até o fundo de um buraco que só aponta para uma verdade, a de que esse único olho, separado de seu Outro, fragmento de um par, é toda a verdade apreensível. Ninguém nada até o fundo do olho da baleia e volta, mas deus foi visto por lá[1].

        Na memória dos povos invadidos e colonizados achamos inúmeros fragmentos de algo que num determinado tempo se quebrou e não mais pode ser reconstruído em sua unidade originária. Podemos dizer, então, que essa memória visual despedaçada é profunda demais, fugidia demais para ser alcançada e o que nos resta é brincar com os fragmentos. Pensar a questão identitária é também assumir a ideia de uma não-identidade que está sempre se fazendo pelo contato com a alteridade.

         A concepção de Stuart Hall sobre a diáspora se fundamenta no conceito do “deslocamento”, fenômeno entendido não apenas como “deslocamento físico”, de uma região para outra, mas principalmente como um deslocamento que pode ser experimentados inclusive sem que o sujeito viaje ou saia de casa, através de cartas, documentos, imagens, sons, etc. Devemos voltar a acreditar na capacidade do conhecimento e prática artística de criar narrativas que informem quem somos

 

[1]Em Genesis I, 21, o poeta mexicano Homero Aridjis diz: “Y las ballenas salieron a atisbar a Dios entre las estrías danzantes de las aguas.Y Dios fue visto por el ojo de una ballena.”. Disponível em: https://www.letraslibres.com/mexico/el-ojo-la-ballena-genesis-i-2i

 

 

AVISTAMENTO

“A palavra avistamento vem do verbo avistar e quer dizer:

Ser percebido através da visão. (Outros termos equivalentes são olhar, examinar ou identificar.)

Costuma-se dizer que ocorre um avistamento quando algo aparece de maneira inesperada. Na época dos descobrimentos geográficos do século XV e XVI, quando os marinheiros identificavam novos territórios realizavam um avistamento (por exemplo, de uma ilha ou terra firme). Além disso, no contexto da navegação marítima, utilizava-se o avistamento de alguns animais marinhos, especialmente os grandes cetáceos que são difíceis de serem observados.”

 

1) superfície, ou O que se deixa ver;  2) Ainda não – quase; 3) o abismo, você não está aqui.

Este caminho visual acompanha o movimento da imagem daquilo que, mesmo incompleto, vemos, para logo descer um pouco mais, acompanhados de nossos equipamentos e máquinas, até um ponto em que tudo é um quase ver, uma nebulosidade e, finalmente, alcançar o abismo, pura imaginação, o amor, deus, como quiserem chamar.

 

1. Superfície, ou o que se deixa ver:

Stills do vídeo Avistamento – 3 m 20 s – Projeção – (Sofia Bauchwitz)

 

 

 

Série fotográfica com tecidos variáveis (Sofia Bauchwitz)

 

Série fotográfica com tecidos variáveis (Sofia Bauchwitz)

 

 

2. Ainda não – quase.

Stills de vídeo em processo, tecidos e corpos no mar (Sofia Bauchwitz)

 

 

3. Do abismo: você não está aqui 

Son las marcas dejadas por el calamar gigante que cuentan la vida privada de los abismos. Lo que encontró en la orilla de la playa fue el cuerpo sin vida de una ballena cachalote completamente enamorada.

 

“I was so in love with you, before I descovered you dark side, that black thing.”

 

Texto wikipedia, black hole

A black hole is a region of spacetime exhibitingmgravitational acceleration so strong that nothing—no particles or even electromagnetic radiation such as light—can escape from it.[6] The theory o general relativitypredicts that a sufficiently compact mass can deform spacetime to form a black hole.[7][8] The boundary of the region from which no escape is possible is called the event horizon. Although the event horizon has an enormous effect on the fate and circumstances of an object crossing it, no locally detectable features appear to be observed.[9] In many ways, a black hole acts like an ideal black body, as it reflects no light.[10][11]

 

Her House on the water – I – Escultura de Pedra (Sofia Bauchwitz)

 

Her house on the water – II – Escultura de pedra (Sofia Bauchwitz)

 

Aquele buraco (Sofia Bauchwitz)

 

Livros. Série Queria ver e tentei. Fragmento. Texto Impresso. (Sofia Bauchwitz)

 

 

©

 

* Sofia Porto Bauchwitz (Rio de Janeiro, 1988) é formada em Artes Visuais (UFRN) e mestre em Pesquisa em Arte e Criação pela Universidad Complutense de Madrid (UCM). Sua tese doutoral “El artista errante y el discurso como cartografia” (UCM/CAPES) gira em torno de problemáticas do discurso artístico e da não-identidade nas práticas artísticas contemporâneas. Mora em Rio Grande do Norte.

 

 

Revista Philipeia 

Ano VII

ISSN: 2318-3101 

Verão 

Parahyba - Nordeste - Brasil

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