Home

   VOZES NA GARRAFA: A METÁFORA NECESSÁRIA, OU A SÍNTESE ANTROPOFÁGICA

 

Joacyr Bezerra Lima*

 

                                                                                                                                                                       

Andei por aí esta manhã,

não acredito no que vi

100 bilhões de garrafas carregadas pela água até beira-mar

Parece que não sou o único que está sozinho

100 bilhões de náufragos, procurando um lar.

Message in a bottle (The Police)

 

                                                          

Ivan Vilela

 

O músico, crítico e professor, Ivan Vilela, traz novos ares à crítica musical, e principalmente uma lucidez sobre os processos contemporâneos e sociais dos significados de constructo ético e formal do caráter da música brasileira nos tempos modernos e passadiços. E grave, pois crítico, conota e denota as intempéries do que é produzir música, e brasileira, e mais importante: trazê-la ao seu lugar de cultura. Aqui trazer tem o único sentido de “propiciar”, e nunca de forma alguma, apenas o de “exportar”.  Lucidez a muito talhada por pesquisa e profundidade sobre o tema, é o que emana de sua conferência em Aveiro, Portugal em 21 de maio de 2015. Iconoclasta, é necessário lembrar o nome de sua conferência: “Canonizações e esquecimentos na música popular brasileira”.

 Ali, brilhantemente perfaz-se um caminho formal da cultura musical no Brasil. Se extensa sua análise não menos é cuidadosa e profícua. Gestando-se sobre o elemento musical faz ponte da colonização, ao império mediático moderno e seus caminhos que tornam a música brasileira o que é, potente veículo cultural e emancipado na cultura musical mundial, e por extensão com aspectos únicos criativos. Ele não se resume a sua “viola”, maravilhosa, diga-se à parte; e nem resume-se as águas do sertanejo, hoje com seus multifacetários tons brega. Na realidade, ele usa o termo caipira (“caa pir”: termo dado a cultura “oral” dos mestiços, índios, bandeirantes, mamelucos e até portugueses do séc. XVI, na língua Inhangatú, de Anchieta). Procura aprofundar-se nas “origens” e nas “margens”, ou seja, as bordas adjacentes que ficaram de fora. E propõe-se a demonstrar que: o excluído da crítica musical é o alijado? Propõe, ele, que os exclusos, não se põem como arestas, mas formas que a “intelligenzia” nacional, não a deglutiu, e, por não se ter cabedal teórico para isto. No não compreender o constitutivo novo que ali, naquela obra, se instaura, e por inovador, “dificulta-se” as possíveis compreensões quando não se é “claramente” oposta à compreensibilidade teórica anterior. Mas, o que nunca se consegue é impedir a “efetividade” da obra na renovação ou mesmo perpetuação desta, no modo, jeito, cadência, harmonia, rítmica, et cetera et cetera. Aliás, a perpetua e inova. É assim que ele resgata o “Quarteto Novo”, este radical grupo instrumental dos idos de 66 de sonoridade refinada e muita, muita, riqueza harmônica, ― onde até hoje, ativos, alguns, na comunidade musical de forma ainda inusitadamente inovadora. Destes, agora nomeados: Théo Barros (contrabaixo, violão, compositor e arranjador, são conhecidas suas obras em parceria: “Disparada” com Geraldo Vandré e “Menino das laranjas” na voz de Elis Regina, saudosa…); Heraldo do Monte (viola e guitarra, e outros… além de arranjador), Airto Moreira (percussão e bateria) e o multi-instrumentista Hermeto Pascoal (…imprescindível à música instrumental mundial). Exemplifica, nesta conferência, o inusitado deste disco de mesmo nome, Quarteto Novo, lançado pelo Odeon em 1967; “único”, em seus dois sentidos, por ser apenas este; e “sui generis”, em sua proposta musical: sonoridade e harmonia. O “Quarteto Novo” é ápice, também, de uma reforma músico-cultural, não só por acompanhar e arranjar músicas de Geraldo Vandré e Edu Lobo, respectivamente “Disparada” e “Ponteio”. A contemporaneidade que traz seu primeiro disco, integra o nordeste musical, harmoniza como jazzistas/ou clássicos, mas de forma integrativa, ou melhor, autofágica. Tudo é lúcido, lúdico, sensorial… e Brasil. Parodiando Rita Lee, aqui o “Brazil”, conhece o “Brasil”! Influência fecunda a Edu Lobo, Bethânia e tanto atentos à nova sonoridade.

E estende esta análise até o “Quinteto Armorial”, dos plúmbeos “anos de chumbo” ― uma história à parte, e triste… ― composto pelo rio-grandense Antônio Jose Madureira (viola caipira… e chamado pelo ideólogo e mentor do movimento Armorial, o paraibano Ariano Suassuna, para criar e liderar um grupo que conciliasse o erudito e o regional), Egildo Vieira do Nascimento (Pífano e Flauta), Antônio Nóbrega (Rabeca e Violino, e danças regionais) Fernando Torres Barbosa (Percussão e Berimbau) e Edison Eulálio Cabral (violão). A música erudita (que Vilela a decompõe em “ex ru”: não rústica, daí “erudita”), camerística, propõem em fusão ante as sonoridades do “repente”, do “galope”: ritmos e processos musicais nordestinos e populares, fusões harmônicas e rítmicas. Alça-se este voo no projeto do multi-fomentador de ideias e escritos: “Ariano Suassuna”, mago e mestre! E, como esquecer, Vilela citando a “Elomar Figueira Mello”, menestrel, cantador das coisas do agreste com uma sensibilidade e técnica ímpares, impar e, desculpe-me o cacoete, pois sem par ele tem apenas seguidores expansores de sua obra, ― como “João Gilberto” impera solene sobre o seu modo de entoar o canto e o tocar. O mestre em Musicologia e professor do Departamento de Teoria Geral da Música na Escola de Música da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) em Belo Horizonte, Eduardo de Carvalho Ribeiro, assim o define, em seu artigo ‘Contexto e estilo além do popular e do erudito’: “A música de Elomar apresenta-se em linguagem complexa e de difícil compreensão. São comuns audácias cromáticas, surpresas harmônicas e melodias sinuosas estruturadas em um fraseado nem sempre convencional, traços presentes em suas canções e também nas óperas de sua autoria.”

Mas, e importante, além deste rico proceder analítico, Ivan Vilela também formula uma metáfora essencial sobre o estado de cultura que a música brasileira ostenta, ostentou e é capaz: a do “Caldeirão Cultural” ― brilhante percepção!!! Demonstra ele que, como Oswald, como Mário, ou como no Tropicalismo, é impossível estar brindado as influências externas, como o já “quis” o severo crítico Ramos Tinhorão ao contextualizar a bossa nova: “Tenho uma pena de Tom Jobim, ele tinha um equívoco fundamental: achava que compunha música popular brasileira”, já disse este crítico ― excelente por sinal no âmbito, ou nicho que o apazigua ― em simpósio frente a Hermínio Belo de Carvalho na “Flip” ( Festa literária internacional de Paraty) de 2015. Mas, estar-se permeável, não é estar-se submetido, submerso e eivado do imitativo. Sucumbe a cultura que assim se processa. A permeabilidade cultural, inevitável desde a construção teórica do conceito de “aldeia global”, que mesmo se ingênuo no seu crédito a uma comungar planetário, como numa “aldeia”. Assim dizia, alguns críticos antecipando a selvagem ingerência do mundo do capital financeiro, ao filósofo canadense Herbert Marshall MacLuhan ― para, ele, a revolução industrial de âmbito tecnológico: telecomunicações e o computador uniriam o mundo fragmentado das nações numa aldeia global, comunicação imediata de conteúdos através de entes mediáticos. Ledo tempo aprazível para a felicidade mundial.

O que o próprio Ivan Vilela nos demonstra, nas “transformações” dos setores da cultura fonográfica em “trustes” de informações e propagações de cultura mediática. Por informação e cultura mediática, quero dizer aquela que é isenta de conteúdos culturais locais, ele se expressa por um ser um “pastelão” que se amálgama por pasteurização dos ingredientes culturais, sem raízes específicas, mas qualificada a seduzir vários gostos. Não é de se estranhar que por isso não tragam informações culturais de raízes comunitárias, ou como também o diz, Ivan Vilela, sobre a capacidade da música ligada à raízes: (aos 46m30s): “A nossa música popular (brasileira), nossa, é cronista de processos migratórios, lutas populares, é ali que se narra. Mesmo na época dos festivais de 68 a imprensa era “abafada”, mas as músicas faziam esta crônica”.

A produção do “gosto”, deste “gosto” agora global, e já, ironicamente, sem noção de “aldeia”, “comunidade!”, é um processo mediático de produção de mercado do capitalismo financeiro, que não se perfaz na divulgação do “local”: o produto produzido naquela, nesta, ou ‘trans-outra’ cultura. O “jabá”, jargão do velhos tempos do império do rádio como divulgação, termo que denota o ato de “molhar a mão”, aquilo que se dava ao disc-jóquei, o programador daquele espaço, ou tempo da programação naquela hora, naquela rádio e naquele horário da rádio. Ou seja, mesmo que pago, “por fora”, ele ainda toca de tudo, pois você, ou uma gravadora ia com seu disquinho e pedia que ele desse uma “canja” (gíria para “uma chance”). Mesmo ‘amaciado’ (outra gíria!) “ele toca de tudo e de todos” ― ele divulga! Hoje um espaço de “mídia” que é vendido, pelo valor do horário, horário nobre, horário menos comercial, et cetera. Se, num primeiro momento, isto parece-nos justo e democrático. É de se lembrar, vivemos o tempo do interesse dos grandes grupos de gravadora em promover o que lhes traz lucro, o resto se exclui! Pequenas “firulas”, como também se diz na gíria…

E, se voltarmos à metáfora do “caldeirão cultural”, percebemos que é quase impossível, agora, o múltiplo dentro do caldeirão cultural; o que transbordava daquele caldo, jazz, mpb, viola, canção de protesto, samba canção, et cetera: à exemplo a partir do que lembro ouvir ― Dercy Gonçalves cantando “A perereca da vizinha está solta por aí/ Xô pereca, xô perereca”; ouvir o “Ébrio”, na voz portentosa de Vicente Celestino; ou o límpido dia claro de sol nos  acordes do “barquinho” de Menescal e Bôscoli: “Dia de luz festa do sol e um barquinho a deslizar…”; ou também a minúscula e rítmica voz de João ao violão. Ou a lenta, densa, espessa, de Caymmi “é doce morrer no mar”… E às 18h00, meu pai, seu José Bezerra Lima filho, nordestino, paraibano de Bananeiras,  ouvia: “no pé da cajarana, amarei meu boi/ e quero o bicho amarado”; mais um dos variados,  diversos,  programas de rádio e musicais… tantas doces lembranças de candeeiro de querosene buscado no morro de mesmo nome, a rua de subida que levava ao Morro do Querosene, e o rádio, grande, de pilha, sempre as quatro pilhas grandes, e o mundo que ali se abria tocando, tocando…

[Continua na próxima edição]

 

*Ensaio inédito para a Philipeia, sobre a conferência apresentada por Ivan Vilela, na Universidade de Aveiro, Portugal em 21 de maio de 2015, sob o título: “Canonizações e Esquecimentos na música popular brasileira”.

 

©

 

Joacyr Bezerra é poeta e crítico musical. Formado em Letras pela USP.  Mora na capital paraibana. 

 

Revista Philipeia 

Ano VII 

ISSN: 2318-3101 

Verão 

Parahyba - Nordeste - Brasil

América Latina

 

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s