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VIDA BREVE:

PEQUENA BIOGRAFIA DA OBRA  DE JOSÉ RUFINO

 

Eduardo Augusto de Carvalho*

 

Cartas de Areia (José Rufino)

 

Origens

Nascido José Augusto de Almeida em 1965, filho de Maria Marlene Costa Almeida  e  Antônio Augusto de Almeida, desde muito cedo tem contato com as artes, filosofia e política, pois seus pais foram militantes do partido comunista brasileiro (PCB).  Encanta-se logo muito novo pela geologia, pois seu pai, engenheiro civil,  era professor desta matériana Escola Técnica da Paraíba. Passou a se entusiasmar por geologia estudar por conta própria folheando os livros de seu pai e a ir com ele para aulas de campo. Sua mãe conta que “não podia ver uma pedra no meio da rua, que corria para apanhar e guardar em sua coleção”. Coleção essa que foi doada para UFRPE no fim de suas atividades como geólogo.

O seu gosto pela geologia era tanto, que desde muito cedo já era um prodígio nessa área.  Foi convidado por uma colega, professora amiga do seu pai,para ajudá-la em trabalho de campo com seus alunos na cidade de Recife. Sua mãe conta essa história com muito bom humor, pois ficou de cabelo em pé, por ter que mandar o pequeno Rufino sozinho para outra cidade. Mas, o mais divertido, é que “todos os alunos esperavam por ele, achando que era um doutor no assunto”, porque a professora dizia para os alunos: “vamos aguardar o meu colega, que será nosso consultor nessa aula”, e isso lhe dava ares de alguém importante no tema que abordava.  Outra grande figura na sua formação é o seu avô paterno, José Rufino, a quem toma de empréstimo o “Rufino”. Mas, vamos deixar essa história para depois, pois talvez possamos já responder nossa primeira pergunta. José Rufino, avô, coronel  dono de engenho de cana de açúcar na cidade de Areia no interior da Paraíba. Dono do Engenho Vaca Brava. O velho Rufino, homem muito culto, tinha como visitas constantes em sua casa nomes do quilate de Horácio de Almeida, historiador, e do escritor José Américo de Almeida, apenas para citar alguns parentes do pequeno Rufino. Nesse ambiente multicultural, onde o velho Rufino reunia toda a família, netos sobrinhos para falarem sobre autores e livros no jogo de perguntas, onde eram feitas perguntas, e quem não soubesse a resposta era achincalhado, e ninguém queria ficar por baixo.  Foi nesse mundo particular que a admiração pelo avô do pequeno Rufino cresceu e foi aí que Rufino buscou se encontrar nos estudos, encaminhados sob as orientações do pai, professor, e da mãe artista.

O caminho das pedras

José Rufino tem no final da década de 1970 sua primeira experiência com arte. Foi matriculadono curso de iniciação às Artes Plásticas na Coordenação de Extensão Cultural da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) no final década de 1970. Mas, segundo sua mãe, o seu primeiro desenho – que ela guarda com muito cuidado – foi feito ainda antes dessa data, num caderno que ela dava para ele ficar entretido, enquanto ela frequentava um curso de Artes na Universidade Federal da Paraíba. Rufino e seu amor pelas rochas falou mais alto. No inícios dos anos 1980, ele vai para Pernambuco, e cursa geologia na UFPE, onde se envolve intensamente com os movimentos estudantis e desperta o interesse pela poesia, principalmente pela poesia experimental, visual e concreta.

Em 1979 morre o velho José Rufino, o avô a quem tanto o pequeno Rufino admirava. Em homenagem ao seu avô, José Augusto se tornaria José Rufino, tomando, assim, de empréstimo, a alcunha do avô. A memória do seu avô e do mundo rural permearia todo seu trabalho. Já no fim dos anos de 1980 publicaria poesias em jornais de João Pessoa e Recife e ao fim do curso foi fazer a pós-graduação na USP em Paleontologia e paralelamente monta seu atelier de arte. Em 1992 volta à cidade de Recife como professor de Paleontologia e desenvolvendo seu trabalho como artista.

 

Tempo, Memória e Arte

Em sua narrativa evidencia-se a busca pela memória e é na memória que o artista tem seu momento de lucidez e é nessa memória que toda sua obra está fundamentada.

O acerto de contas com seu avô, o velho Rufino, devido a posições politicas divergentes, se torna o centro de seu trabalho. Em Cartas-de-areia, seu primeiro trabalho mais relevante e no qual ele materializa essa memória, há varias cartas e documentos herdados do avô, nos quais o autor faz varias intervenções (figura destacada sobre o texto).

Apesar do que apontou Benjamin, com o possível fim da narrativa, que possivelmente a experiência da comunicabilidade estaria chegando ao fim, José Rufino aponta um novo caminho em sua obra, repleta de memórias e dessa narrativa biográfica que faz de seu trabalho. Isso se tornou possível por ele usar móveis e documentos da família para criar uma arte que se torna uma enciclopédia de símbolos, onde são reconstruídas suas memórias e sensações, retratos de uma família.

Assim, ele faz com que esses móveis e essas instalações dialoguem com o espectador, lhes causando estranheza, tirando os móveis de seus lugares normais, jogados em novos espaços, onde a obra do artista mostra toda sua grandiosidade, mostrando não aceitar as normas e relações institucionais.

Rufino viveu entre a elite oligárquica à qual pertencia seu avô e a militância comunista dos filiados ao PCB, tendo em sua casa visitantes ilustres como o Luiz Carlos Prestes. É nesse passado que Rufino busca as influências de suas memórias, pois, entende-se, sem esse passado não pode haver presente. Mergulhado em suas memórias, vai buscar entres objetos de sua família, móveis, cartas e documentos, a matéria prima para dar forma a sua obra.  Assim, na sua obra, busca a identidade nas memórias da sua família, nas suas raízes:

“Meu trabalho confunde-se com o processo da vida. Não existe um limite definido entre criação e não criação. Onde acaba o trabalho e começa o artista? Prefiro falar no processo de elaboração, que é um processo de acumulação de aprendizado e esquecimento, impregnado de interferências da própria história da arte. Os trabalhos talvez não sejam criados e sim coletados com uma espécie de peneira num grande e turvo depósito de possibilidades estéticas e conceituais.(…) Os caminhos a seguir às vezes parecem claros e às vezes completamente turvos, e é exatamente esta ambiguidade que me distancia de um uso maneirista dos elementos”.[1]

Portanto, em sua obra, José Rufino transporta, num processo arqueológico, a busca pelas suas raízes e memórias, reelaborando essas mobílias e documentos numa estética cheia de vigor, para não deixar cair no esquecimento, tanto a sua própria memória, como a memória coletiva. Usa, para isso, a memória de sua família. Como afirma Pollak: “Para que nossa memória se beneficie da dos outros, não basta que eles nos tragam seus testemunhos: é preciso também que ela não tenha deixado de concordar com suas memórias.”

José Rufino se mantém fiel ao seu trabalho de luta contra o esquecimento, enquanto a busca da memória é latente em seu trabalho. Usando das mobílias e documentos da família, ele constrói uma obra contundente no cenário das artes no Brasil e fora. Obra da estranheza, que tira-nos do conforto da regularidade, do lugar comum e nos joga no não lugar, onde a obra mostra sua grandiosidade e possibilidade estética.

Exposições Individuais

1992 – São Paulo SP – Programa de Exposições do Centro Cultural São Paulo, no Pavilhão da Bienal
1995 – João Pessoa PB – Respiratio, na Galeria Archidy Picado
1995 – Olinda PE – Respiratio, no Museu de Arte Contemporânea de Pernambuco
1996 – Rio de Janeiro RJ – Lacrymatio, no Espaço Cultural Sérgio Porto
1997 – João Pessoa PB – Memoria Deporene, no Núcleo de Arte Contemporânea
1997 – Recife PR – Individual, na Galeria Vicente do Rego Monteiro
1998 – Brasília DF – Individual, na Galeria Ruben Valentim
1998 – São Paulo SP – Cartas de Areia, na Adriana Penteado Arte Contemporânea
2001 – Natal RN – Individual, na Casa da Ribeira. Sala Petrobrás
2001 – Vila Velha ES – Murmuratio, no Museu Ferroviário Vale do Rio Doce
2002 – Rio de Janeiro RJ – Memento Mori, no Espaço Cultural Sérgio Porto
2002 – João Pessoa PB – Obliteratio, no Centro Cultural São Francisco
2003 – Recife PE – Individual, no Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães – MAMAM
2005 – Niterói RJ – Incertae Sedis, no MAC/RJ
2005 – Recife PE – Axioma, no Amparo 60

2006
Participou da arteBA, 15 Feria de Arte Contemporáneo, em La Rural, Pabellones Amarillo y Rojo, em Buenos Aires, através da Galeria Virgílio.
Realizou, na condição de diretor de arte, o curta Gravidade, gravado em João Pessoa, em 35mm, com o diretor Torquato Joel e Walter Carvalho como diretor de fotografia.
Fez parte da mostra “5×5”, Casa da Ribeira, em Natal (RN).
Participou da exposição “Ver=ler”, na Galeria da Faculdade de Artes Visuais UFG, em Goiânia, e integrou a exposição “Lugar plano no Espaço Cultural Contemporâneo – ECCO”, em Brasília, esta última sob curadoria de Divino Sobral.
Realizou exposição individual na Embaixada do Brasil em Berlim, através do Programa Copa da Cultura, sob curadoria de Luiz Camillo Osório.
Participou da exposição “Paisagem bruta”, na Galeria Virgílio, em São Paulo, com curadoria de Luiz Camillo Osório, e da mostra “Geração da virada: 10+1 = os anos recentes da arte brasileira”, no Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo, com curadoria de Agnaldo Farias e Moacir dos Anjos.
Integrou a exposição “Desenho contemporâneo”, na galeria MCO Arte Contemporânea, no Porto, em Portugal, sob curadoria de Marcelo Campos, e a exposição “Primeira pessoa”, no Itaú Cultural, em São Paulo, sob curadoria de Agnaldo Farias.

2007
Participou da Primeira Bienal del Fin del Mundo, realizando no antigo presídio de Ushuaia, Argentina, a obra Lex oblivionis (28), composta por camas cortadas e inseridas em seis das pequenas celas do presídio onde estiveram presos comuns e importantes presos políticos.
Participou da arteBA, 16 Feria de Arte Contemporáneo, em La Rural, Pabellones Amarillo y Rojo, Buenos Aires, através da Galeria Virgílio.

2008
Iniciou uma nova frente de trabalhos com mobiliário de metal, cujo primeiro produto de maior proporção é a instalação Náusea (29), composta por um agrupamento geométrico de escrivaninhas, arquivos de diversos tipos e monotipias à maneira de Rorschach e primeiramente exposta no Centro Cultural do Banco do Nordeste, em Sousa (PB).
Fez parte da mostra coletiva “Desenho em todos os sentidos”, durante o Festival de Inverno 2008, no SESC Nova Friburgo, em Petrópolis, Teresópolis e Rio de Janeiro.
Participou da exposição “Heteronímia Brasil”, no Museu da América em Madri, sob curadoria de Adolfo Montejo Navas.
Participou da exposição internacional “Diálogo intercultural”, no Núcleo de Artes e Cultura da UFRN, em Natal (RN), com curadoria de Teresa de Arruda.
Participou da mostra “Superfícies da memória”, com curadoria de Lisbeth Rebolo e Sylvia Werneck, no Museu de Arte Contemporânea de São Paulo. Para a mostra, criou nova versão da obra Náusea.

2009
Na Usina Cultural Energisa, em João Pessoa, participou da exposição “Cartas/trajetos” com a obra Autorretratos, da série Cartas de areia, com curadoria de Bitu Cassundé.
Na mostra “Memorial revisitado, 20 anos”, ocorrida no Memorial da América Latina/Galeria Marta Traba, em São Paulo, apresentou a instalação Léthe (30), com curadoria de Ângela Barbour e Fernando Calvozo.
Representado pelas galerias Virgílio e Amparo 60, participou da SP-ARTE/Feira Internacional de Arte de São Paulo.
Com curadoria de Philippe Daverio, Elena Agudio e Phelippe Blachaert, apresentou a obra Náusea 2010, criada pelo artista especialmente para mostra “Las Américas Latinas – las fatigas del querer”, no Spazio Oberdan, em Milão, na Itália.
Participou da exposição “Saccharum BA”, no Museu de Arte Moderna da Bahia em Salvador, com curadoria de Alejandra Muñoz, expondo 60 desenhos da série Cartas de areia.
Em julho, a obra Timidus (31), composta por uma cama modificada exposta na parede, integrou a mostra “Alcova”, na Galeria Laura Marsiaj – Arte Contemporânea, no Rio de Janeiro. A curadoria foi de Marcelo Campos.
Em setembro, voltou a expor na Itália, no Palazzo dei Congressi, em Pisa, com “Mind the brain, an experimental exhibition”, que contou com curadoria de Elena Agudio. Apresentou a obra inédita Rorschach mind test for barbaric subversion – 300 gravuras à maneira de Rorschach, sobre papéis preparados em tipografia.
O conjunto de obras que integrou “Sertão contemporâneo” – Quimera (32) e cinco desenhos de técnica mista sobre papel parafinado – foi exposto na Caixa Cultural de Salvador (BA), com curadoria de Marcelo Campos.
Com um novo Sudoratio, participou da exposição “Linha orgânica”, na Galeria Amparo 60, no Recife, com curadoria de Ana Maria Maia.
Na Galeria Virgílio, em São Paulo, participou da mostra “Múltiplos e pequenos formatos”.
No final de 2009, ganhou o prêmio Bolsa Funarte de Criação Literária, com o projeto de um romance intitulado Desviver.

2010
Iniciou o ano trabalhando intensamente na produção de duas exposições individuais e redigindo o romance Desviver.
Expôs Faustus (33), uma grande instalação, representando um ser de 22m construído em gesso e peças antigas de madeira e móveis, no Palácio da Aclamação em Salvador, com curadoria de Marcelo Campos.
Na Galeria de Arte Contemporânea Casarão, em Viana (ES), montou a exposição individual Silentio (34), apresentando uma grande instalação construída com restos de móveis e pedaços de madeira recolhidos pelo artista, após a enchente que inundou a cidade de Viana. Além dessa obra, produziu uma performance/instalação em que utilizou uma cadeira antiga recoberta por lama e sedimentos do rio Santo Agostinho. A curadoria foi de Neusa Mendes.
Produziu o vídeo Myriorama 3, apresentado durante a mostra Silentio.
Passou a ser representado pela Galeria Millan, de São Paulo.
Em abril, inaugurou mais uma exposição individual, no The Andy Warhol Museum, em Pittsburgh, EUA, intitulada “Blots & figments” e com curadoria de Jessica Gogan. A mostra foi composta por 78 obras, com monotipias à maneira de Rorschach sobre papéis relacionados à vida de Warhol e papéis originais do legado do artista, com detalhes reimpressos de seus Rorschachs, sobre jornais antigos e documentos de parentes e pacientes com Alzheimer.
Apresentou o vídeo Myriorama 2, criado a partir de pesquisa sobre fotos antigas de Pittsburgh realizada pelo artista em 2009.
Participou, com a obra Quimera e desenhos, da exposição “Preto no banco – do concreto ao contemporâneo”, na Galeria Berenice Arvani, em São Paulo, com curadoria de Celso Fioravante.
Integrou a mostra “Jogos de guerra – confrontos e convergências na arte contemporânea brasileira”, na Galeria Marta Traba do Memorial da América Latina, em São Paulo, com curadoria de Daniela Name.
Participou da exposição “Come-in” com a obra Memento mori, no Museu Oscar Niemeyer, em Curitiba, sob curadoria de Renate Goldmann.
Concluiu a primeira versão do livro Desviver, cuja reprodução foi enviada ao Centro de Programas Integrados.
Recebeu a Bolsa Funarte de Criação Literária, no final de janeiro.
Representado pela Galeria Millan, participou da SP-ARTE / Feira Internacional de Arte de São Paulo e da Art Basel 2010 em Basiléia, na Suíça.
Na Fundação Vera Chaves Barcellos, com curadoria de Vera Chaves Barcellos, integrou a mostra “Silêncios e sussurros”, em Viamão (RS).
A instalação Náusea foi exposta, inaugurando a Sala Nordeste no MinC, no Recife, com curadoria de Marcelo Campos.
Participou da mostra “Paralela 2010” com a obra Nostrum spiritus rebellis. Nostrum spiritus domitus (35), sob curadoria de Paulo Reis, no Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo.
Ganhou o Prêmio Bravo! Prime de Cultura de Melhor Exposição, com Faustus, instalação apresentada no Palácio da Aclamação, em Salvador (BA).
Em dezembro, participou da Art Basel, em Miami, EUA, com duas vitrines intituladas Aenigma e 2 (36).
Realizou a quinta exposição individual deste ano – Aenigma (37) –, na Galeria Millan, em São Paulo, com 14 obras inéditas.

2011
Em março, participou da exposição coletiva Projeto ideal (38), no Centro Cultural São Paulo, com as obras Aenigma 3, Effugium e quatro gravuras intituladas Morbus 8, sob curadoria de Sandra Cinto.

Hoje nos anos de 2018 retorna a arte postal, onde começou no inicio de sua carreira, lá no inicio dos anos 1980 quanto em recife teve contato com esse estilo de arte, influenciado pelo artista Paulo Bruscky.

[1] RUFINO, José. [José Rufino]. In: RODRIGUES, Elinaldo. A Arte e os artistas da Paraíba: perfis jornalísticos. João Pessoa: UFPB, 2001.

 

* Eduardo Augusto de Carvalho é membro do Jornal União e pesquisa Antropologia da Imagem. Vive na capital paraibana.

 

Revista Philipeia 

Ano VII

ISSN: 2318-3101 

Verão

Parahyba - Nordeste - Brasil

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