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GRUPO, GERAÇÃO OU MOVIMENTO

 

Hildeberto Barbosa Filho*

 Grupo, geração ou movimento?

É pergunta pertinente dos que acompanharam a vida intelectual de João Pessoa a partir dos anos 60. Sobretudo porque o período se caracteriza pela crise no quadro geral das determinações culturais. O traço mais agudo se distende por entre os múltiplos caminhos a seguir no desafio das propostas artísticas, especialmente poéticas.

De um lado, o foco de resistência da Geração 59, defendendo aquilo que o poeta Vanildo de Brito denominou de “clara e vertical esperança de redenção humana”, ao mesmo tempo em que se revelava sedenta de “uma visão unitária e harmônica do universo”[1] quer nos moldes clássicos de recuperação da lírica tradicional; quer no sentido espiritualista impresso na textura de cada verso. De outro, poetas mais jovens, produzindo em torno de propostas desobedientes das lições do passado e conscientes da necessidade de uma mudança radical em termos de dicção, uma vez que o pequeno mundo da província já não era o mesmo. Inserto na avalanche de transformações do pós-guerra, este pequeno mundo dava seus primeiros passos no interior das contradições da modernidade. Eis o que motiva, em linhas gerais, a experiência poética de grupos como o Sanhauá e Caravela. [2]

E dentro de sua formulação histórica, como se constitui o grupo Sanhauá? Que categorias da historiografia e da crítica literárias poderiam situá-lo melhor, tanto no que toca as suas relações com a realidade local, como àquelas ligadas à literatura brasileira como um todo? O sanhauá teria a amplitude conceitual de uma geração ou os requisitos históricos e estéticos de um movimento literário? Ou seria um simples grupo de poetas, mais ou menos aproximados na idade cronológica e no ideário lítero-estético?

Antes de respondermos a tais indagações, é preciso ressaltar o caráter de imprecisão teórica de termos, como geração, movimento e grupo, na medida em que muitos historiadores e críticos utilizam-nos arbitrariamente, sem processar quaisquer distinções significativas entre eles. Na verdade, o contorno semântico destas categorias ainda não foi delimitado, em que pesem as tantas disquisições literárias em torno de sua natureza. No entanto, algumas nuances podem ser estabelecidas, facilitando, assim, uma possível classificação em se tratando do Sanhauá.

Desde Dilthey, passando por Ortega y Gasset, Julius Peterson, Julián Marías, até Fidelino e Figueiredo, Paulo Cretella Sobrinho e Irineu Strenger, estudiosos reponsáveis pela construção da noção geracional, que dois fatores básicos se fundem na modulação do termo: a idade e a ideologia. Via de regra são da mesma geração pessoas nascidas em datas próximas e dotadas de afinidades culturais. Contudo, com observa Massaud Moisés, “pode ocorrer discrepância de idade e nem por isso dois escritores deixaram de situar-se na mesma geração, como no caso de Machado de Assis, nascido em 1839, e Aluísio de Azevedo, nascido em 1857”.[3] E, continuando, contrargumenta o referido historiador:

Por sua vez, escritores em idade aproximada podem filiar-se, ideologicamente, a correntes divergentes, como, por exemplo, Guilh[4]erme de Almeida, nascido em 1890, e os promotores da “Semana de Arte Moderna”, sobretudo Mário de Andrade, nascido em 1893, e Oswald de Andrade, nascido em 1890. Lato sensu, pois, uma geração se identifica pela idade de seus membros e por uma dada visão de mundo.

O conceito é elástico, portanto. E exige, pelo menos na perspectiva de Ortega y Gasset, a confluência dos requisitos cronológicos e culturais.

Cronologicamente, a geração corresponde a uma faixa de quinze anos durante a qual uma maneira de vida, com seus traço característicos, teve vigência. Para o pensador espanhol, uma geração se particulariza, na medida em que é necessário escolher, dentro da história e independentemente da idade de seus componentes, aqueles que não podem se classificar nem como precursores nem como seguidores. Daí decorre, de logo a necessidade de trazer, para discussão, o tema do epônimo, ou seja, da figura de proa. Figura que, devido o papel de mentor, de orientador, de liderança, termina por nomear a geração. Ouçamos A. L. Machado Neto (1973, 30) sobre o assunto:

… Encontrado o epônimo da geração decisiva, necessário se faz precisar a data de sua entrada na vigência social. Essa será a data de tal geração, o ponto nodal que nos permitirá distribuir os demais integrantes da mesma geração entre os sete anos que antecederam e os sete que sucederam esse ponto central.[5]

Ora, utilizando este critério em termos de Sanhauá, defluiremos, de imediato, a impossibilidade de vê-lo como uma geração. No entanto, não nos parece errônea a hipótese de que poetas, como Marcos Vinícius, Marcos Tavares e Sérgio de Castro Pinto, por exemplo, devam pertencer, devam integrar, melhor dizendo, uma geração literária, numa zona de tempo específico, que viveram as artes e a poesia, em João Pessoa. O quadro cronológico recobre precisamente os meados da década de 50 até os fins dos anos 60, fechando, assim, o espaço sincrônico dos quinze anos, estipulados por Ortega y Gasset. E desta geração, na qual se situa historicamente o Sanhauá, da mesma forma que a Geração 59 e o Grupo Caravela podem ser considerados os epônimos, Vanildo de Brito, Geraldo Carvalho e Marcos dos Anjos.

O poeta Marcos dos Anjos: mentor do Sanhauá (1963)

Ora, aqui poderia surgir alguma objeção no sentido de que este período só satisfaria o requisito cronológico da categoria geracional, uma vez que as datas de nascimento dos referidos epônimos acham-se mais ou menos aproximadas. Mas tal objeção não procederia: na verdade existe, em que pese a visível diferenciação de atitudes intelectuais dos vários integrantes, uma identificação de ordem cultural, que lhe fornece os elementos de base para aquilo que Ortega y Gasset denomina de “atitude vital”, típica de uma geração.

Vejamos, a propósito, como o pensador espanhol situa o problema:

Uma geração é uma variedade humana, no sentido rigoroso que dão a este termo os naturalista. Os seus membros vêm ao mundo dotados de certos caracteres típicos, que lhes emprestam fisionomia comum, diferenciando-os da geração anterior. Dentro desse marco de identidade podem estar indivíduos do mais diverso temperamento, até o ponto em que, tendo de viver uns com os outros, porque contemporâneo, se sintam às vezes como antagonistas. Entretanto, sob a mais violenta contraposição dos prós e dos anti facilmente descobre ao olhar uma comum filigrama. Uns e outros são homens de seu tempo, e por muito que se diferenciam, ainda assim se parecem. [6]

Sem dúvida, é o que ocorre se cotejamos, do ponto de vista da concepção geracional, componentes do Sanhauá com representantes da Geração 59. Da perspectiva poética, em particular salta aos olhos a discrepância dos ideais e da própria prática estética, muito embora os aproximem aquela “filigrama comum” entrevista no objetivo de mudar o comportamento literário, de, mais exatamente, sacudir o mofo do epigonismo no limpar e arejar o baú da poesia paraibana. Se nos poetas aglutinados em torno de Vanildo de Brito, a mudança se processou de maneira atenuada e ainda atenta às lições de disciplina formal dos mestres de 45, naqueles aliados a Marcos dos Anjos, a mudança, por sua vez, operou-se de forma radical, apresentado aspectos singulares de uma ruptura característica da modernidade.

 

Márcio dos Anjos, o mentor do Sanhauá (1963)

 

Em ambas as atitudes, contudo, revelou-se uma marca de insatisfação face à mesmice da produção poética, na Paraíba, estigmatizada pelo anacronismo dos códigos e modelos, ainda tributários das sucatas poéticas do período anterior à Semana de Arte Moderna. Em que pesem os exemplos isolados de modernidade colhidos na lírica de Augusto dos Anjos, Eudes Barros, Perylo Doliveira, Silvino Olavo e Eduardo Martins.

Em função, portanto, do que discutimos até aqui evidencia-se a impropriedade do conceito de geração para configurar, histórica e literariamente, a experiência artístico-cultural do Sanhauá. Como pudemos verificar, a categoria geracional, devido a sua amplitude, abarca outros momentos e outras experiências, inseridas, contudo, num mesmo quadrilátero histórico. Daí porque sustentamos que o Sanhauá, embora não constitua, de per si, uma verdadeira geração, situa-se perfeitamente no interior desta categoria histórico-literária, materializada, aqui, nos momentos decisivos das décadas de 50 e 60. (…)

Ora, o Sanhauá não poderia ser visto como um movimento, dada as suas características de “amplitude”, vaguidade e imprecisão.[7]  Mas, por outro lado, é preciso convir, de acordo com Vitor Manuel de Aguiar e Silva, que a literatura, enquanto atividade especial do “homem criador de valores”, insere-se obrigatoriamente no devir temporal e no transcurso histórico. Cabe inteira razão ao teórico português quando dispõe:

As obras literárias, porém, não se inserem no discurso temporal de modo heteróclito ou fortuito, nem como uma gigantesca coleção de indivíduos absolutamente alheios uns aos outros.[8]

A noção de movimento serve justamente para estabelecer os liames, tanto a nível das postulações formais como a nível de visão de mundo, entre os autores e as obras. A noção de movimento serve, de conseguinte, para ajustar determinada produção literária ao mapa estético de uma tendência, ao transcorrer normal da história literária.

Não se corporificando enquanto movimento, o Sanhauá se amolda perfeitamente às tendências ou ao movimento da poesia de vanguarda. Imediatamente, às experiências da poesia concreta e da poesia práxis, de certo modo, continuadoras dos investimentos formais de poetas, como Oswald de Andrade, Cassiano Ricardo, Carlos Drummond de Andrade e João Cabral de Melo Neto. Mediatamente, ao fluir subterrâneo de toda a poética de vanguarda europeia, desencadeado a partir da segunda metade do século XIX, com as condiderações teóricas de Edgar Alan Poe e Baudelaire, intensificadas textualmente na lírica de Rimbaud, Mallarmé, Valéry e grande parte da dicção poética moderna do século XX.

 

[1] Vinculado às propostas da literatura de vanguarda foi coetâneo do Sanhauá o grupo Caravela, aglutinado em torno de Geraldo Carvalho, e tendo como componentes de destaque, Archidy Picado, José Leite Guerra, Maria José Limeira, entre outros.

[2] MOISÉS, Massaud. “Movimento” In: _____ Dicionário de termos literários. São Paulo: Cultrix, 1984, 36.

[3] Id. 36

[4] MACHADO, A. L. Estrutura social da república das letras. São Paulo: Edusp. 1973.

[5]  MOISÉS, Massaud. “Movimento” In: _____ Dicionário de termos literários. São Paulo: Cultrix, 1984, 36.

[6] Epíteto aplicado à noção de movimento por Oscar Tacca na publicação de Massaud (35).

[7] SILVA, Vitor Manuel de Aguiar. A periodização literária. In: Vanguarda e cosmopolitismo. São Paulo: Perspectiva, 1983, 67.

 

©

 

* Hildeberto Barbosa Filho é doutor em Literatura, professor aposentado do departamento de Letras da UFPB, poeta e crítico literário paraibano.

 

 

Revista Philipeia

 Ano VII 

ISSN: 2318-3101 

Verão 

Parahyba - Nordeste - Brasil 

América Latina

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