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AS RAÍZES DA “DESRAIZADA”: ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE AS FONTES DE UM UNIVERSO FOTO-IMAGÉTICO

 

Ana Monique Moura*

 

A fotografia na América Latina traz grandes nomes que destacam, a partir de suas lentes, identidades peculiares ao exercício fotográfico da imagem, tendo a perspectiva do corpo e sua expressividade política e/ou antropo-sociológica como um dos motes norteadores, a exemplo dos trabalhos de (para citar alguns), no Brasil, Calorina Horita, na Argentina, Helf Prentice, no Chile, Albertina Martinez Borges (assassinada recentemente pela polícia, por cobrir a violência contra as mulheres pela própria polícia) e, na Venezuela, Desraizada (Catherine). Este breve ensaio quer falar sobre uma delas.

Antes, o contexto: na América Latina, os caminhos que o governo venezuelano de Nicolas Maduro tomou são muito controversos para a esquerda latino-americana. Se há uma unanimidade, ela está em aquiescer que não há unanimidade em aprovação ao seu governo na ótica da própria esquerda. Seguindo as vias de um regime ditatorial, Nicolas Maduro colocou a realização de uma sociedade democrática no limbo, e dividiu as opiniões da própria “esquerda” sobre a qualidade e eficácia da eficiência política de seu governo. Um regime, se passa a ameaçar o direito de expressão, tende a, inevitalmente, colocar a arte como a primeira a ser atingida. E se ocoloca de contra aquilo que, a meu ver, a esquerda deve mais prezar: a liberdade crítica através das possibilidades democráticas, e não ditatoriais, da arte. Como então, denunciar, através da própria arte, um regime que sucumbe a ameçar a expressão cultural de um povo? Num processo dialético, que a história  naturalmente sempre nos oferece, é no momento de sua repressão, que a arte precisa ser mais contundente e viva, e ganha a necessidade maior de permanecer atuante. Esse é cenário no qual vive, diria, ativamente, a fotógrafa venezuelana, como escolhe ser chamada, Desraizada (Catherine).

 

 

Desraizada não está necessariamente nas ruas, realizando registros fotográficos do povo venezuelano sob o regime de Nicolas Maduro. Ela está aliada tão só a sua solidão latente e quer, ainda assim, revelar nisso, o que acontece na Venezuela. Mas, como ela consegue? É importante trazer à tona: antes que estejamos diante de suas imagens, há uma fotógrafa que vê a si mesma como imagem. Há aí, antes, os olhos da mente da artista, que vê e ao mesmo tempo não vê simplesmente, porque atua, interfere, realiza. Peirce nos ajudaria a pensar esse processo, naquilo que ele chama por primeiridade, secundidade e terceiridade. A primeiridade, a como sensação, a secundidade, como a representação de si mesma e a terceiridade, como a consciência deste fenômeno. Assim, Desraizada, vendo a si própria, como imagem, enxerga, em seu caso, uma mensagem política capturada. Descobre-se aqui que não se trata de ver meramente algo na imagem, mas de obter uma sensação, uma representação e uma consciência de si a partir do meio de fora (a sociedade, a nação, o mundo), num prostra-se em uma vivência que conduz coloca a “fotógrafa fotograda” naquela expressão barthesiana em “La chambre claire” (Paris, Seuil, 1980): cerrada, possuída e paralisada (poigné-saisi-transi). Uma espessa subjetividade é o que há de imagético no real sentido do termo. Além da fotografia, o imagético aqui depende de nosso imaginário alcançar o que não é retratado exatamente, no sentido de registro ou documento. As fotografias de Desraizada transcendem esse campo. Por isso, diz ela: Bitácora de mi desarraigo, es un medio para drenar, para gritar y compartir lo que llevo adentro”. 

É aí que a fotografia de Desraizada se insere em algo que ultrapassa uma suposta e esperada apresentação da realidade social, e habita da representação do real. Esse real é seu entorno abstraído na bicromia das suas imagens envolvendo o seu próprio corpo fotografado. Isso invoca, logo, uma diferença intensa entre aquilo que é documental e o que é representacional. Ainda que se coloque como um documento histórico de um período difícil na Venezuela, é a representação que cabe ao sentido das fotografias de Desraizada, ou seja, não apenas uma apresentação tácita e rigorosa de um momento histórico, mas especialmente de um estado subjetivo em um dado momento histórico através de uma solidão do corpo no espaço, numa atmosfera que muito pode lembrar, inclusive, as fotografias de Francesca Woodman (1958-1981).

 

 

 

Assim, suas imagens trazem a necessidade de conceber a diferença entre uma estética política e uma estética militante. A abordagem estética de Desraizada é mais política que militante. Isso porque o sentido de militância, naquilo que sua raiz terminológica significa, tende a estar ligado a um movimento, a uma ligação ou elo com outras pessoas, no qual se requer uma práxis, uma ação em comum com outras pessoas. Indo, inclusive, além da expressão “estética política”, as fotografias de Desraizada estariam muito mais coesas com um sentido de “foto-imagética polítizada”. Na contramão da militância no seu aspecto “grupal” ou “movimentista”, as fotografias invocam o sentido de solidão política, cujo conteúdo é arrancado de uma imagética representacional de ordem subjetiva, mais que uma mera apresentação documental, da realidade social na qual ela vive. Seus trabalhos atravessam, então, a seguinte base: os auto-retratos calcados na solidão e a capacidade de um retirar a “imagem” e o “sentido” desde o “dentro”, ao invés daquilo que está “fora”.

 

 

 

 

As cores que não o preto e o branco, quando utilizadas pela fotógrafa, o são de maneira muito comedida, mas o suficiente para não disputar o protagonismo do preto e branco. Numa atmosfera opaca, brumosa e sombria, se revela um sentido e uma conclusão de um estado de ser que reivindica e denuncia algo que está fora (o meio social). Esse “dentro” é, muitas vezes, o quarto de Desraizada, além de qualquer espaço que ela escolhe para suas imagens e que sucumbem à melancolia que o “fora” insufla, mas é também, especialmente, a interioridade da própria fotógrafa. A comunicabilidade disso está expressa no corpo, no olhar e nos meneios capturados pela câmera sobre si própria. Do momento estático e absorto, convite certeiro à nossa atonia, aos movimentos do corpo de Desraizada, há uma mensagem imagética que fala, um traço fotográfico, uma escrita da imagem, que se resvala na angústia do reconhecimento de que a fotografada, sendo a própria fotógrafa, está nos dizendo algo no seu abismo de silêncio em bicromia que resvala nos tons metafóricos do que significa, politicamente, “tempos plúmbeos”. A base disso está, sobremaneira, não no corpo de Desraizada, mas na corporeidade, ou seja, em algo muito mais extenso que seu próprio corpo enquanto um ente dentro da imagem… Aqui cabe uma semiose hiperplástica, indo fundo, além da perspectiva noética – que, sozinha, encerraria as imagens em meros “autorretratos autênticos”, uma definição que seria, de per si, pobre, para o que o trabalho de Desraizada revela naquilo que é muito mais que qualquer autenticidade… O suposto silêncio digerido nas fotografias de Desraizada acomete o nosso olhar num convite ao dizer fenomenológico do indizível da imagem. Rompendo com qualquer taxonomia fixa, para além da noética, então nos vem a estética e, por vezes, o retorno à fenomenologia da imagem até a sua passagem à semiose… mas o que mais sobrevive disso tudo é a imagética ativa, no sentido de que a imaginação, mais que o documental, lhe guarda. É aí que reside a possibilidade máxima de comunicar o punctum, aquilo que é, como gosto de dizer, “a Captura da própria captura fotográfica”, da qual Barhes tanto nos falou. As fotografias de Desraizada são um convite para alcançar o sentido através da sensação da transvisão, quando a imagem resgata a imaginação e a subjetividade, no lugar do esforço pela apresentação documental, para não dizer tácita, da realidade, ao se falar em “momento político”.

A subjetividade acaba por ser a máxima corporeidade comunicativa da obra de Desraizada, lançada na profunda bicromia, a um só tempo, luminosa e obscura, para representar a grande culminância das suas fotografias: o habitar de si como um habitar a alteridade, sendo isso a nação, cujo tempo belicoso ditatorial atinge o corpo inerme e silencioso da artista, transfigurando-o em força e resistência ao mesmo tempo, na medida em que assume um outro modo de dizer de si, quando o dizer dos outros é limitado ou coibido. Esse dizer, que é angustiado, solitário, “grito em silêncio”, reverbera na imagem suprimindo o corpo fotografado rumo à algo maior: a corporiedade da alteridade social. Vê-se, logo, que o que está “dentro” é como o que está “fora”.

 

©

 

* Ana Monique Moura. PhD – Filosofia, Teoria Crítica e Estética Aplicada (UFPB & HGB, Alemanha). Vive na capital paraibana.

 

 

Revista Philipeia 

Ano VII 

ISSN: 2318-3101 

Verão 

Parahyba - Nordeste - Brasil

América Latina

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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